Deus não está morto, o filme

Por Hermes C. Fernandes

Ontem levei meus filhos para assistir ao filme “Deus não está morto”. Propositadamente, preferi sentar-me longe deles, algumas filheiras atrás, deixando-os à vontade para apreciar a película e depois emitir sua opinião. A sala que comportava 163 pessoas estava praticamente lotada, sendo perceptível, pela reação do público, que a maioria ali era cristã. Devo admitir que certamente teria deixado o cinema sentindo-me bem constrangido diante de uma plateia não cristã.

O filme conta a história de um rapaz cristão que se nega a escrever uma frase que seu professor de filosofia ordenou que todos escrevessem numa folha de papel e a entregasse assinada. Diante de sua recusa em escrever “Deus está morto”, seu professor o desafia a apresentar uma defesa consistente acerca da existência de Deus. Abandonado pela namorada que o acusou de estar comentendo um suicídio acadêmico, o rapaz topa o desafio por sentir-se chamado por Deus para defendê-lo naquela universidade.
Os argumentos que ele usa são, de fato, bem fraquinhos e facilmente rebatidos. Mas audiência desconhece isso, e vibra a cada assalto. Fica evidente que o objetivo do estudante é provar que o professor estava errado, desbancando-o diante da turma.
Ora, para início de conversa, Deus não está contratando advogados. Em vez disso, Ele prefere recrutar testemunhas para que deponham acerca do Seu amor e não que defendam Sua existência. Por mais convincentes que pareçam nossos argumentos, sempre haverá um contrargumento a eles; somente o amor é capaz de calar até a mais elequente argumentação. Ademais, nada é mais contraproducente do que ficar procurando frestas na lógica de um oponente, a fim de sobrepujá-lo. A única arma capaz de perfurar sua armadura é o amor.
Por que Deus não Se mostra? Por que não rasga o céu e diz: Ei! Estou aqui! Estão me vendo? Parem de duvidar de minha existência!
Se Deus estivesse interessado em provar Sua existência, Ele simplesmente aparecia para o mundo inteiro em rede nacional e em horário nobre. Em vez disso, Ele preferiu provar o Seu amor expondo-se vergonhosamente numa rude cruz.
Tudo parece indicar que Ele não seja muito afeito a espetáculos. Sua desconcertante discrição é uma prova de Seu amor por seres tão ávidos de atenção como nós.
Entrar numa discussão sobre a existência de um Ser superior que teria criado todas as coisas é uma enorme perda de tempo, pois estaríamos nos submentendo aomodus operandi do mundo, onde o que vale é ter razão. O evangelho se põe na contramão de tudo isso. Para Deus, o que vale é ter amor. A razão pode esperar.
Outra coisa que me embrulhou o estômago no filme foi o uso e abuso dos estereótipos. Este foi o primeiro comentário que meus filhos fizeram depois de assisti-lo. Para quem já morou nos Estados Unidos como nós, e principalmente para eles que estudaram lá, nada causa maior repugnância naquela sociedade do que o preconceito. Será que todo muçulmano espancaria sua filha e a poria para fora de casa por haver se convertido ao cristianismo? Será que todo ateu é intragável como aquele professor, e ainda por cima, trata sua namorada ou cônjuge como se fosse empregada? E o que dizer do ‘chinezinho’, filhinho de papai? E o missionário africano cujo sonho era conhecer um parque temático? E o americano barbudo, típico “red neck” (caipira), com uma bandana da bandeira americana na cabeça, tentando provar que sua mulher, apesar de cristã, tinha uma vida digna,vestia-se como uma dama, usava salto alto, enquanto ele fazia fortuna com suas invenções para caçar patos? Qualquer um que conheça bem a cultura americana percebe o tom político/ideológico do filme (republicano!). Não rompemos com os estereótipos que tentam nos impor simplesmente estereotipando a outros.
Usou-se de maneira aberta argumentos filosóficos, científicos, e, de maneira subliminar, passou-se a visão americana de vida (american way), mas em momento algum falou-se de amor. A não ser em frases de efeito do tipo “Jesus te ama!”. Houve até uma defesa do livre-arbítrio para tentar salvaguardar a soberania divina do ataque de quem acusa Deus de ser responsável pelo mal no mundo.
A “queda-de-braço” entre Deus e o professor termina com ele atropelado quando ia a um show gospel à procura de sua ex-namorada. Agora, impotente, estirado no asfalto, ele teria que reconhecer na marra quem era o maioral. Deus já havia feito com que o motor do carro que levaria o missionário africano e seu colega americano ao parque de diversões falhar por diversas vezes, para que naquele momento pudessem conduzir o pobre moribundo a se dobrar ante a soberania de Deus, rendendo-se a Ele antes de partir.
Eu podia ouvir comentários de irmãos que deixavam escapar um “bem-feito!” diante daquela cena. “Quem mandou brincar com Deus, seu prepotente idiota?” Minha vontade era de me levantar e ir embora do cinema. Chocado com a reação dos crentes, torci para que não houvesse ali nenhum ‘incrédulo’ para escandilizar-se com tamanha demontração de amor.
Cheguei à conclusão de que Deus deve estar realmente morto… morto de vergonha. Um filme panfletário, recheado de ideologia, promovendo, entre outras coisas, a famigerada indústria gospel americana e colocando os cristãos entrincheirados contra a ciência.
O que Deus espera de nós, afinal? Vivemos numa sociedade cada vez mais indiferente às demandas do evangelho. Como reagir? A maioria de nós imagina que o que agradaria a Cristo seria nos levantar em Sua defesa. Ledo engano. Pergunta a Pedro como ele se sentiu ao ser repreendido por Jesus diante de seus colegas e dos soldados que O prendiam, por haver desembainhado sua espada para defendê-Lo. O que ele queria era arrancar a cabeça do soldado e não decepar sua orelha.  Sabe por que Pedro errou a pontaria? Porque seus olhos estavam cheios de remela. É só voltar a fita para flagrá-lo dormindo enquanto Jesus soava sangue. Agora queria bancar uma de herói. Mete a espada na bainha, Pedrão! Quem com ferro fere, com ferro será ferido. O que Jesus espera de nós hoje, era o mesmo que esperava dos discípulos que infelizmente adormeceram enquanto Ele sorvia o cálice que Lhe era destinado. Mas o que foi que eles lhe deram? Apatia! E o que é que temos dado hoje? A mesma apatia. Não nos importamos com os que sofrem ao nosso redor. Não damos a mínima para as vítimas das injustiças, das tragédias, dos vícios. Estamos mais preocupados em provar que temos a razão. O mundo inteiro está errado! Somente nós temos a razão. Somos os detentores da verdade! De fato, há razão de sobra e paixão de menos. Cristo não precisa de quem O defenda. Mas busca quem defenda o oprimido, o excluído, o miserável. E quem sair em defesa destes, será como se saísse em defesa do próprio Deus. O resto não passa de espetáculo circense.
Todos que me acompanham sabem o quanto gosto de cinema. Eis aí um filme que não recomendaria a ninguém. Encontrei muito mais do espírito do Evangelho em filmes como “Os miseráveis”, “Nárnia”, e até em “O Senhor dos Anéis”. Se gostou do que viu, quem sou eu para discutir seu gosto. Mas espero ter contribuído para sua reflexão acerca dos valores passados nas entrelinhas desta obra.

P.S.: Coincidentemente, em seu primeiro dia de aula na Universidade Federal Fluminense, meu filho Rhuan se viu desafiado pelo professor de Filosofia, juntamente com os demais alunos, a escrever uma frase semelhante negando a existência de Deus numa folha de papel em branco, assinar e entregá-la. Meu filho pegou sua folha e começou a escrever sua defesa da existência de Deus. Quando já se preparava para entregar, quem se fazia passar por professor de Filosofia anunciou: Isso aqui é um trote! Rhuan me confessou que respirou fundo, amassou o papel e livrou-se dele disfarçadamente. Espero que este filme não estimule nossos jovens a embates desta natureza. Passei por coisas semelhantes quando jovem e posso afiançar que não vale a pena. Quase apanhei de nove colegas por defender minha fé. Tive que me abrigar atrás do balcão de uma farmácia. À época, senti-me orgulhoso por ter “sofrido por amor a Cristo”. Hoje vejo que sofri por não querer abrir mão de ter razão. 

 

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