Por que os ‘rios voadores’ da Amazônia não chegaram a São Paulo este ano?

150114_877762475567963_6174085599775637580_nIronicamente desde o início do ano a grande mídia nos inunda com uma enxurrada de manchetes sobre a seca paulista em abordagens superficiais explicando para a população apenas como “falta de chuvas”, mas a queda nas precipitações do último verão está longe de ser a regra para o clima desta região. O que pode ter alterado o grande corredor de rios voadores em formato de bumerangue que costuma existir nos verões da América do Sul?

A expressão ‘rios voadores’ foi criada pelo pesquisador José Marengo (Inpe) ao se referir à grande quantidade de água na forma de vapor carregada ao centro-sul do Brasil com uma massa de ar quente (Massa Equatorial Continental – mEc) proveniente da floresta amazônica. No último verão, a umidade que se desloca com a mEc não chegou a São Paulo e as chuvas ficaram bem abaixo das médias mensais esperadas para o período.

Imagens de satélite do Cptec/Inpe das precipitações mensais (figura em anexo) mostram claramente no verão 2013/2014 os habituais rios voadores não chegaram da mesma forma que os anos anteriores. Seguem os dados da estação meteorológica do IAG/USP para o útimo verão na cidade de São Paulo:
– Dezembro/2013: 72,1mm (61% abaixo da média climatológica, calculada de 1933-2013, é 185,9mm). Foi o 2° mês de Dezembro mais seco da série;
– Janeiro/2014: 199,3mm (14% abaixo da média climatológica, calculada de 1933-2013, é 231,9mm). Foi o 28° mês de Janeiro mais seco da série;
– Fevereiro/2014: 81,1mm (62% abaixo da média climatológica, calculada de 1933-2013, é 212,5mm). Foi o 4° mês de Fevereiro mais seco da série;

As explicações para anormalidades climáticas como essa são diversas, enquanto para alguns se trata apenas de eventos cíclicos dentro de grandes intervalos de tempo, para outros as razões parecem convergir para possíveis desdobramentos do aquecimento global e da perda de cobertura florestal. O aumento das temperaturas médias da superfície do planeta poderia alterar a dinâmica das correntes marítimas e das massas de ar, já o desmatamento reduz a umidade no ar devido ao fato de que, ao transpirarem, as florestas funcionam como verdadeiras ‘bombas d´água’ que liberam na atmosfera bilhões de litros na forma de vapor. Sendo assim, ambos os fenômenos parecem influenciar nos padrões climáticos.

Segue um pequeno esboço com algumas hipóteses de fatores que podem estar influenciando neste caso da seca paulista:

1. O aquecimento global; nos últimos 15 anos foram batidos quase todos os recordes históricos de maiores médias de temperaturas anuais medidos desde 1850; a amazônia enfrentou nos últimos anos a maior seca (2010) e as duas maiores cheias (2009 e 2012) desde o início das medições nos rios em 1902; estaria provocando alterações na dinâmica das massas de ar que atuam na América do Sul; neste contexto de temperaturas médias mais altas, a zona de influência da Massa Tropical Continental – mTc vinda do Paraguai pode ter se redimensionado estacionando o ar quente/seco e impedindo a chegada da umidade da Amazônia, bem como aumentado as temperaturas médias nesta região provocando maior evaporação dos rios/reservatórios e aprofundando lençóis freáticos;

2. O desmatamento de 22% da floresta Amazônica brasileira (IBGE/Prodes), 47% do Cerrado (MMA) e 91,5% da Mata Atlântica (SOS Mata Atlântica) fez com que essas coberturas vegetais deixassem de prestar importantes serviços ambientais como a regulação das temperaturas médias e o ‘bombeamento’ de imensa quantidade de vapor d´água para atmosfera resultando nos rios voadores e nas chuvas em São Paulo durante o verão. Na situação específica da bacia hidrográfica do sistema de represas Cantareira um estudo da Ong SOS Mata Atântica apontou a perda 76,5% das matas ciliares (áreas de APP), o que provoca assoreamento, aumento na taxa evaporação e podendo até levar à extinção de nascentes e microbacias.

3. O aumento da urbanização do Centro-Sul brasileiro provocaria uma somatória de ilhas de calor aumentando as temperaturas médias e a taxa de evaporação dos rios e reservatórios.

4. O aumento da população e do consumo de água – a população do estado de São Paulo cresceu 4,2 milhões de 2000 a 2010 (IBGE). Vale dizer que o consumo médio por habitante no sudeste é de 194,8 litros/dia (Ong Tratabrasil), ou seja, na comparação 2000/2010 houve um aumento no consumo de aproximadamente 818 milhões de litros/dia no estado de SP. Some-se à isso outro ponto importante: a coleta/tratamento de esgoto ainda não são universais desabilitando a captação de água em alguns trechos de rios, dados da ong Tratabrasil apontam que no país apenas 18,7% do esgoto recebe tratamento, em SP 52,19%;

5. Outros eventos não elencados (nos comentários desta postagem o professor Lucivânio Jatobá de Oliveira, do departamento de Ciências Geográficas da UFPE, colaborou citando como influência para a estiagem um avanço mais intenso do anticiclone do atlântico sul: “Ele ficou mais enérgico e agiu intensamente sobre o Centro-Oeste e partes do Sudeste. Isso gerou bloqueios de frentes e inibição da convecção. Some-se a isso, mesmo que discretamente, a subsidência do ar decorrente do El Niño , que já dava marcas de seu início em março e abril”) ou desconhecidos;

6. Somatória dos fatores citados.

Em janeiro de 2008 houve um padrão de distribuição de chuvas um pouco semelhante ao que ocorreu este ano, os rios voadores não chegaram a São Paulo, no entanto nos verões seguintes (2009-2013) a umidade vinda da Amazônia se restabeleceu. Nos últimos anos, os pesquisadores Philip Fearnside (Inpa) e Antonio Nobre (Inpe) vêm atentando para evidências de relações bilaterais entre a floresta amazônica e as mudanças climáticas, porém sem grande atenção da mídia. A estiagem virou até motivo de disputa política, mas com um reducionismo da questão. O fato é que os meios de comunicação não se preocuparam em iniciar uma reflexão e discussão com a população sobre as possíveis causas, a maior parte da informação é passada de maneira reduzida e incompleta, o que compromete a conscientização para mudanças nas matrizes energéticas dos países, nas estratégias de conservação/valorização dos serviços ambientais de grandes biomas e na atitude de cada pessoa diante do novo panorama socioambiental.”

Fonte: Mário Ferreira Neto 

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